terça-feira, 15 de novembro de 2016

SUPER LUA


Super Lua

Foi assim. Depois de muitos anos, do nada,  se esbarraram na rua.
Ambos se assustaram. Entreolharam-se um tanto quanto ressabiados. Tanto tempo...
O fim havia sido triste. Depois de tanto tempo...
Foram anos de um amor  alegre entre ambos. Um dia, não se lembravam quando, nem porque, o vento mudou de direção e começou a afastar um do outro, até que se perderam.
Cumprimentaram-se meio sem graça, com uma certa ansiedade.
- Como vai você?
- Vou bem...
Haviam envelhecido. Os rostos mais marcados, uma ponta de tristeza e resignação nos olhares, as costas mais encurvadas, menos brilho nos sorrisos apagados.
Por que foi que haviam terminado? Ambos ainda buscavam a resposta.
- Há quanto tempo...
- Pois é...
Mas estava lá. Perdido lá no fundo do baú de lembranças, o antigo amor que existira.
- Nunca me esqueci de você.
- Nem eu.
As lembranças aprisionadas aproveitaram então  o momento de descuido para se soltarem, e dançavam loucamente na mente de ambos, como que debochando das suas fracas tentativas de as manterem trancadas por tanto tempo...
Entre tantas, houvera uma  noite, em que houvera uma lua. Era tão linda, brilhante, a mais bela que haviam visto. Seu reflexo no mar parecia ouro puro. A noite fora mágica. Calados, admiraram aquele espetáculo que lhes fora oferecido pela natureza, abismados diante de tanta beleza e da sorte de viverem juntos aquele momento.
- Você se lembra daquela lua?
- Como poderia esquecer? Parecia um filme do Spielberg.
Nunca mais, em todas as luas cheias que iluminaram este mundo, houve outra como aquela.
- Vamos nos encontrar.
- Vamos. Na próxima lua cheia. Na próxima semana.  No mesmo lugar em que vimos aquela outra.
E tão atarantados ficaram com esse encontro, que se despediram como se tivessem se visto no dia anterior e se esqueceram de perguntar o paradeiro do outro, do qual propositalmente fizeram questão de perder a conta.
Foi no dia seguinte que descobriram que aquela seria uma lua especial. A Super Lua. A maior no espaço de cem anos.
Ela pensou. Seria um pressagio? Um sinal divino, esse encontro do nada, às vésperas da Lua Cheia, que marcara tão profundamente a vida de ambos. E a memória do dia mais feliz de sua vida voltou sob a forma de uma dor aguda.
Ele pensou. Será que levo um espumante? Champagne, com certeza. Nada abaixo, para celebrar o reencontro de seu mais antigo amor.
Ela pensou. Devo ir? Remexer o passado que lhe fora tão triste. Não seria reabrir feridas que custaram tanto a cicatrizar...
Ele pensou. Será que teremos uma nova chance? A vida lhe oferecia uma oportunidade ou uma nova decepção?
À medida que se aproximava o dia,  ficaram mais aflitos, sem respostas para suas questões, até que resolveram, cada um por sua conta, deixar nas mãos do destino.
 No dia choveu.  De suas janelas, desolados observavam o céu e suas lágrimas se juntaram às gotas da chuva que caia sem parar. E o encontro marcado entre eles e a lua não houve. Ambos se deixaram levar pela amargura e o medo, e não compareceram. Não se deram conta  que acima das nuvens escuras do ressentimento e da tristeza lá estava ela,  pacientemente esperando por eles. Sempre.
Linda, eterna, brilhante e serena. A lua.

sábado, 1 de outubro de 2016

TEMPO


O tempo é o maior presente que a vida nos dá. Esta, no entanto, não nos entrega de maneira arrumadinha, ordenada.  Ao contrário, maliciosamente, ela nos atira na cara, aos borbotões, de forma errática, o que nos leva a acreditar que é infinito.
 E este desgoverno faz a gente viver dias que não acabam nunca e outros  que passam num piscar de olhos. Horas que passam num instante, minutos que se arrastam por horas, segundos que parecem uma eternidade e os anos que passam tão rápido como areia que escorre entre nossos dedos.
E não há controle sobre o tempo. Estamos a mercê de seus caprichos, sem saber jamais se o estamos aproveitando ou apenas desperdiçando.
Nesta semana, ao completar mais um ano de vida, faço a ela,  como nos últimos tempos, apenas um pedido: eu quero tempo.
Não preciso deste para corrigir erros passados, pois estes já foram cometidos e lá no passado permanecerão. Tampouco para me arrepender do que passou.
Preciso de tempo para andar por novas estradas, novos rumos. Para conhecer novas pessoas. Para viajar e conhecer todos os lugares com os quais sonhei. Para por os pés em todos os continentes.
Preciso de tempo para voltar a um certo bar em Nova York, me sentar no balcão, tomar um copo de vinho branco Sancerre e conversar com o cara ao lado,  de cujo nome provavelmente não me lembrarei, e que, por duas horas será o meu melhor e mais sincero amigo e confidente.
Preciso de tempo para ver de novo uma  lua cheia que parece de filme do Spielberg.
Para ver a Aurora Boreal,  visitar a ilha de Skye na Escócia, . Para passar um verão em Porto Fino.  Para passar um bom tempo em Portugal. Para voltar a Goiás e passar férias na Chácara do Padre. Para catar manga madura e molhar os pés na beira de um riacho.
Quero tempo para  passar uma tarde numa praia de areia quentinha, de mar morno e sem ondas,  como as da Bahia, tomar uma caipirinha  e comer peixe fresco. Para dormir e acordar sem ter hora, e sair às quatro da manhã para ir a uma festa que nunca acaba.
Preciso de tempo para comprar um vestido vermelho de saia rodada e sandálias pretas de salto alto, para usar numa ocasião muito especial.
Preciso de tempo para provar novos vinhos e para – sim, porque não? – viver um novo grande amor, pois todo amor deve ser grande, sem ser para sempre, pois é tão passageiro quanto a própria vida.
Preciso de tempo para coisas mais prosaicas. Para ver o final de todas as minhas séries favoritas na Netflix, para ler todos os livros que se empilham na minha cabeceira e nas prateleiras das livrarias.
Para acabar de escrever o meu próprio livro de memórias, mesmo que jamais o publique, ou que alguém o leia.
Para ouvir de novo todas as minhas músicas favoritas, dançar junto em algumas e loucamente em outras.
Para rever amigos antigos e conviver com os de sempre, para experimentar todas as receitas que tenho na minha cabeça, para rir o máximo que puder até a barriga doer, para perdoar e esquecer as mágoas passadas.
Finalmente, preciso de tempo para ver meus filhos, netos, bisnetos e, quem sabe, tataranetos,  permanecerem e prosperarem sobre esta terra.
E é só o que peço. Tempo.
Pois, por mais longa que nos pareça esta vida, no final  ela é sempre muito curta.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

REFLEXOS E REFLEXÕES


Reflexos e Reflexões
( ou seria o contrário?)
Naquele dia, assim como em todos os anteriores de sua vida, até onde sua memória podia alcançar, ela se levantou e se olhou no espelho. E, de repente, lá do outro lado, estava a imagem de uma mulher madura, a fitá-la com olhos sonolentos.
Ela se assustou. Para onde fora aquela jovem de pele lisa, de olhar distraído e entusiasmado, sempre voltado para o amanhã, de risos ou caretas ( dependia do humor), com sobrancelhas arqueadas inquisitivamente, como a questionar eternamente o futuro.
Cuidadosamente, ela começou a estudar a estranha do outro lado do espelho. A pele ainda era lisa e mantinha uma certa firmeza. As maçãs do rosto ainda eram marcantes.  As sobrancelhas ainda inquisitivamente arqueadas. Mas todo o resto era diferente.
O olhar, outrora inocente e inquieto, por vezes tímido ou velado,  tornara-se mais firme, determinado. Havia uma ponta de tristeza e  resignação,  onde antigamente houvera alegria e paixão. Por outro lado, a timidez dera lugar à confiança e este olhar permanecia firme e direto sem tremer ou abaixar as pálpebras.   Lá estavam a tolerância ao invés da indignação, e a compreensão no lugar da crítica.
Em volta dos olhos, linhas tênues e outras mais profundas eram as marcas dos risos e  dos choros, sulcos deixados pelas lágrimas escorridas e  pelas gargalhadas desmedidas.
O nariz, antes atrevido e arrebitado, ainda mantinha sua altivez,  porém não mais espevitado, mas o trejeito inconsciente de empiná-lo ligeiramente sempre que algo lhe desagradava... Ah! Hábitos antigos são  arraigados...
Ela  se deteve por alguns instantes a examinar mais detalhadamente a boca. Esta já não tinha o frescor da primeira juventude, mas ainda era macia e rosada. Mas os lábios que antes se curvavam ligeiramente para cima, num sorriso maroto, comprimiam-se involuntariamente, conferindo austeridade onde antes reinava a brincadeira.  Das antigas covinhas ainda havia um resquício, e em seu lugar estavam lá, é claro, as linhas das preocupações, da amargura, das risadas, dos suspiros, das caretas, das dores e das alegrias.
Ela deu um leve sorriso, e a mulher no espelho também sorriu. Ela reparou que a fisionomia suavizara e que a mulher pareceu rejuvenescer, o que lhe causou um certo alívio.
Diante de si estava um rosto onde o tempo gravara indelevelmente todos os momentos vividos e os sentimentos sentidos.  Em cada linha, em cada marca,  um fragmento de sua vida, de sua história.  De repente,  ela pensou que ainda havia muitos sorrisos a serem sorridos e, fatalmente,  lágrimas a serem derramadas.
Ela suspirou.   E tornou a suspirar.  E deu de ombros. Escovou os dentes enquanto fazia  as pazes com o tempo e com a mulher do espelho, seu reflexo. Depois foi cuidar da vida.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

A CAPA DOURADA

A Capa Dourada
Uma pequena fábula sobre a vida

Era uma vez um rapaz vaidoso, que usava com garbo uma bela capa brilhante e dourada, com a qual encantava a todos.
Um belo dia, o rapaz encontrou a Uma, moça graciosa e faceira, pela qual se apaixonou. Uma, por sua vez, se encantou com o rapaz , que com tanto garbo portava a bela capa, e por ele também se apaixonou.
E Uma se tornou a Única. E o rapaz e ela se tornaram Um. Ambos ouviam as mesmas músicas, sonhavam os mesmos sonhos, sofriam as mesmas aflições, e viviam um para o outro, um pelo outro.
Por anos, a Uma deu de comer ao rapaz o alimento do espírito, e este, em troca, lhe deu de beber seus ensinamentos..  Por anos trilharam juntos os caminhos da vida, subiram montanhas e percorreram vales, o rapaz com sua bela capa, a encantar a todos, e  a Uma a admirá-lo.  E assim, o tempo se passou.
Certa feita, no entanto, o rapaz se descuidou, e a Uma o viu, pela primeira vez, sem a capa. Ela estremeceu. Naquele momento, a Uma  descobriu a verdade terrível. Havia se apaixonado pela capa brilhante, e não pelo homem que garbosamente a portava.
O rapaz, pego desprevenido, se assustou e logo se cobriu com  esta. Mas o mal havia sido feito. Seu segredo fora descoberto.
Uma , de sua parte, embora houvesse vislumbrado a verdade e perdido o encanto e admiração, ainda queria bem ao rapaz e por conta de tantos anos de amor e companhia, continuou a alimentá-lo e a seguir o caminho traçado por ambos.
Mas o rapaz não conseguia esquecer. Ferido profundamente em sua vaidade, mortificava-se a cada dia em que convivia com Uma.  Já não conseguia mais dormir. Passava as noites acordado, remoendo o fato de que alguém havia o vislumbrado de verdade, desprovido do encanto da capa. O medo lhe corroía as entranhas. E se o mundo souber? E se Uma contar a todos? Passou a vigiá-la e a olhava com ódio, pois esta havia descoberto o que tanto se empenhara em esconder.
Após tantos anos vendo o mundo através do véu de sua capa, o rapaz não conseguiu enxergar a realidade. A Uma jamais revelaria seu segredo, pois este não lhe pertencia.
 O rapaz começou, então,  a procurar uma saída para a sua agonia. E encontrou a Outra. Esta, nem tão graciosa, nem bonita nem feia ( e, no entanto,  ele lhe acenou), se encantou pela capa dourada e pelo rapaz que tão garbosamente a portava. E o rapaz que tinha a Uma, agora tinha a Outra. E assim foi por algum tempo. A Uma e a Outra.
Um dia, não suportando mais a situação, ele fugiu.  Enquanto a Uma dormia, na madrugada, ele se levantou devagarinho e saiu pela porta dos fundos, que deixou entreaberta, para não fazer barulho.
O rapaz tinha a Uma mas preferiu a Outra, pois a Uma o vira como ele realmente era, enquanto que a Outra o via da forma como ele queria ser visto.
E lá se foi ele, vida afora, arrastando a garbosa capa dourada e a Outra. Não se alimentava mais, pois a Uma já não lhe alimentava o espírito. Já não dava mais o que beber, pois a Outra não  lhe sorvia os ensinamentos. Eventualmente,  ainda olha disfarçadamente para trás. À procura de Uma?  Esta seguira seu caminho e já não poderia  mais ser vista.
Mas o  Tempo cruel não perdoa. A capa já não é tão brilhante e seu tecido, outrora macio,  a cada dia se esgarça e  se torna mais áspero.
Secretamente ele remenda os buracos, e a coloca sob o sol. E gasta mais e mais horas a remendar, noites afora, o que o Tempo implacável  se encarrega de desfazer.
E, a cada dia, mais atormentado, refugia-se na ilusão de que, apesar de tudo, sempre haverá um último remendo a ser feito.
No entanto, um dia a capa dourada vai parar de brilhar.  O que será então do rapaz? E da Outra?

Em tempo:  Uma? Esta descobrira que não pertencia às Estirpes condenadas a Cem Anos de Solidão e conseguiu uma segunda chance nesta terra...

terça-feira, 5 de abril de 2016

O encontro e os desencontros


O Encontro e os Desencontros

Era um barzinho perdido em Botafogo, daqueles sem identidade, nem feio nem bonito, apenas mais um barzinho.
E lá estavam eles sentados numa mesa do canto para o último desencontro.
É certo que há muitos anos atrás houve um encontro. Foi daqueles em que duas almas se reconhecem e se encaixam como as duas últimas peças de um quebra-cabeça e tudo passa a fazer sentido.
E assim foi, por um longo tempo, até que um vento de fora soprou forte e desfez a figura. As pecinhas se desencaixaram e se espalharam por aí.
Veio então a época dos desencontros, quando se perderam(ou foram perdidos) o tempo, a hora, a oportunidade e o amor.
E a cada encontro havia mais e mais desencontros, em que o silêncio implacável permanecia no lugar do que deveria ser dito, ou então as palavras desnecessárias e impacientes jorravam quando o mais sábio era guardar para si os ditames da raiva, que corroíam como ácido.
E lá estavam eles, num barzinho de Botafogo, daqueles sem identidade, nem feio nem bonito, apenas mais um barzinho.
E lá estavam eles para o último desencontro.
Pediram uma pizza e um vinho barato, pois eram apenas um  pretexto para lá permanecerem por algumas horas.
A pizza não tinha gosto e o vinho descia amargo. Talvez  por sentirem dentro de si a mão da separação iminente que lhes apertava o peito. Ou por serem meros adornos de uma cena triste de um cotidiano qualquer.
Sentados, um diante do outro, pela derradeira vez, trocaram as palavras erradas e deixaram de proferir as que realmente importavam.
E, impotentes, viram os fragmentos de sua relação, cada momento desta, vivido por eles, se desfazer e desaparecer no ar, em direção ao  vazio.
E, pela última vez ,o silencio constrangedor se interpôs sobre eles, como uma sentença irrevogável.
Eles se levantaram e ambos foram viver suas vidas, doravante paralelas, cada um com a vaga e secreta esperança de um dia se reencontrarem no infinito...


terça-feira, 10 de novembro de 2015

A Arte De Sandra Moreyra


A Arte De Sandra Moreyra

Sandra Moreyra era uma mulher inteligente, direta, dona de um dos mais belos e francos sorrisos que conheci. Sabia se expressar como poucos. Bem articulada, viajou pelo mundo a fora, trazendo informações e cultura para aqueles que eram, como eu, seus fãs incondicionais.
Apaixonada pela gastronomia, que pesquisou e que conhecia a fundo, tinha na TV Globo, no Bom Brasil, um dos quadros que  certamente  mais encantaram e adoçaram a boca de todos os que  assistiam o programa antes de partirem para suas respectivas jornadas de trabalho. A Arte na Mesa.
Conheci a Sandra em 1995,  eu ainda uma aprendiz, ao fazer um quadro no programa sobre os amadores que estavam se profissionalizando. A filmagem aconteceu na escolinha de minha querida amiga Ciça Roxo e de sua prima Leonor, que pioneiramente davam aulas de culinária para os aficionados.
Lembro-me da cheese cake de laranja com amoras que apresentei e de meu orgulho ao me ver nas telas de TV.
No ano seguinte, na mesma escolinha a Sandra gravou um programa com um jovem chef paulista, que veio dar aulas sobre Foie Gras, pouco conhecida na época. O chef estava nervoso, pois era seu primeiro programa de televisão e cortou o dedo. Trabalhou de luvas. O nome do chef era Alex Atala.
Em 1998, quando, junto com a Ciça e a Leonor montamos um ciclo de aulas com chefes conhecidos, entre eles o próprio Alex, Francesco Carli, entre outros,  ela nos prestigiou.
Em Fevereiro de 2001 abrimos um restaurante na Barra, o Bistrô Montagu e lá estava ela, cliente e amiga.
E foi lá que fez algumas de suas belas matérias. Em 2004 fizemos um jantar harmonizado com a linha de vinhos Secretos da Viu Manent. A harmonização era feita por intermédio do ingrediente secreto que existia em cada prato, que deveria ser descoberto pelos comensais.
A reportagem começava por um passeio da câmera pelo restaurante, com o fundo  musical de Hitchcock.
Sandra participou do jantar, é claro, e foi a mais entusiasmada em descobrir todos os ingredientes. Foi uma noite inesquecível.
Outra feita, ao fazer uma reportagem sobre caviar, começamos com o mesmo sendo derramado voluptuosamente sobre ostras cozidas no vapor de seu próprio líquido. Usamos uma colherinha de madrepérola, tal e qual os Czares e a aristocracia russa se servia.
Ao fazer suas reportagens, ela chegava com antecedência, com seu texto escrito e ensaiado. Tudo transcorria com uma fluidez impressionante.
Seus textos eram sucintos, bem escritos e continham a maior quantidade de informações possíveis. Uma craque!
Tive a oportunidade de privar de sua companhia e seu marido Rodrigo, xará  do meu então marido, e lembro com muito carinho dessas tardes adoráveis em que rimos muito e ouvimos alguns de seus casos. Eram tantos.
Jamais esquecerei de sua voz grave, de seu sorriso aberto, marca registrada.
Foi e será um exemplo de profissionalismo,  coragem, e de alegria de viver.
Perdemos nós, que ficamos aqui em baixo e nos privamos de sua companhia. Ganham os lá de cima que usufruirão de sua Arte na Mesa.

sábado, 7 de novembro de 2015

Abraçadinhos



Abraçadinhos

Durante muitos anos, sempre que saia por algum motivo no fim da tarde, eu cruzava com um casal de velhinhos, perto de minha casa. Ele era alto e magro. Ela era baixinha, com belos cabelos brancos, que usava num coque. Iam tomar sorvete.
Eles caminhavam sempre juntinhos, abraçados um ao outro, andando devagarinho, no ritmo plácido da velhice, de quem sabe que  não adianta ter pressa para  encontrar a morte.
E serenos, se entreolhavam eventualmente, e conversavam sobre o tempo, sobre a vida e sobre os assuntos banais do dia a dia.
Falavam baixinho e lentamente, com pausas prolongadas, pois ambos tinham todo o tempo do mundo para escutar um ao outro.
Sempre me admirei ao vê-los, abraçadinhos eternamente, depois de uma vida juntos. Um amor tão antigo, provável fruto de uma paixão ardente, quando jovens. Duas almas que deram a sorte de se encontrarem.
Sempre fiquei pensando sobre o que possam ter passado em sua existência em comum. Tiveram filhos? Tiveram netos? Tiveram perdas? Quem sabe?
Sei que tinham um ao outro. E que os dois eram um.
Quando os via, eu parava para observá-los, em seu passinho dos antigos, tão belos e tão dignos em seu amor.
E um alento me aquecia a alma, ao constatar que nesse mundo tão descrente em que vivemos, de relações virtuais, efémeras, vazias, tão eventuais e erráticas, ainda havia espaço para um sentimento tão puro e verdadeiro.
Nessa era de aparências, onde é mais importante mostrar aos outros como somos felizes, em vez de nos ocuparmos  verdadeiramente em o sê-lo, a verdadeira felicidade é essa que passeava candidamente à minha frente.
Um dia deixei de vê-los. Gosto de pensar que partiram juntos para outro lugar. Abraçadinhos e se entreolhando. Não é bonitinho?



domingo, 1 de novembro de 2015

Sussurros

Sussurros

Um bar de classe média, desses em Copacabana, frequentado pelas pessoas médias, no meio da semana, mediamente cheio. A conversa rolava amena entre os frequentadores, todos familiares, amigos ou moradores, conhecidos dos donos do estabelecimento.
Como a maioria dos pequenos bares do bairro, as mesas eram pequenas e encostadas umas nas outras e, portanto, mesmo sem querer, acabamos por participar dos dramas cotidianos da vida alheia.
E lá estava eu, mediamente entediada, passando o tempo, enquanto esperava por minhas companhias.
Diante de mim um copo de vinho branco, ao meu lado um casal.
Como já disse antes, sou uma observadora compulsivamente fascinada pelo comportamento humano, fonte infinita de inspiração para minhas modestas considerações a respeito da vida comum, que é a vida vivida por nós.
De frente um para o outro, sussurravam alto seus entendimentos, os quais não se entendiam.
À volta o ambiente familiar começava a se animar, certamente incentivado pelo nível etílico da clientela.
E os sussurros ao meu lado também subiam de tom. As palavras eram ditas mas, ao que parece, não eram entendidas. Ouvia-se mas não se escutava o que fora dito.  Triste e comum erro entre os casais - na ânsia de se fazerem entender pouco compreendem o que o outro quer falar. Os copos eram os dados, e ambos eram os peões do próprio jogo de emoções atribuladas, que jogavam com o desespero de viciados. E lá permaneceram,  cada um do seu lado da mesa, tabuleiro estratégico dos sentimentos ali postos em jogo. E a cada jogada, mais e mais apostavam, sem se dar conta do quanto perdiam. Amor, desamor, amizade, angústia, medo, incompreensão, dignidade, respeito, desprezo, raiva, desespero...
Não houve vencedores. Saíram ambos derrotados pela vida, que se interpôs em seus caminhos e os separou. Mas guardaram - creio e desejo a eles - ainda uma última cartada, que é a esperança, que traz consigo o remedinho mágico chamado tempo que cura tudo e faz esquecer.
Meus amigos chegaram. Fizemos um brinde à vida, tão boa, tão cruel, tão doce e tão amarga. Tão inesperada, e ainda assim esperada, mas acima de tudo, a vida que temos, que merecemos(ou não) e que vivemos.
Brindei com um chopp bem geladinho...

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Tela Branca


A Tela Branca

Diante de mim a tela branca me desafia.
-  “Vamos ver! Mostre ao que veio!”
Dentro de minha cabeça milhares de ideias se engalfinham pelo privilégio de ser a primeira a ser gravada na tela branca.
Fecho os olhos e ouço o Concerto de Brandenburgo no. 3 em meus fones de ouvido. A música me acalma e estimula ao mesmo tempo. Eu presto atenção nas belas frases musicais. Os instrumentos choram, riem, conversam entre si, todos falando ao mesmo tempo, numa harmonia quase dolorosa.
Diante de mim as ideias dançam frenéticas, numa tentativa infrutífera de se organizarem.
Abro os olhos e diante de mim está a tela branca. Pouso os dedos no teclado, os quais levemente estremecem. O coração acelera e se aperta na antecipação de mais um processo sofrido de apaziguar os pensamentos indóceis.
Meus dedos não se movem.
 Nesse momento, presa, imobilizada,  sinto-me uma mensageira que perdeu o rumo e que esqueceu o seu destino.
Com o coração no passado, a mente no futuro, cá estou eu no presente, diante de uma tela branca, dividida entre buscar respostas no que passou, ou alternativas no que virá.
A tela branca me fita, debochando de minha capacidade de  marcá-la de forma indelével e irreversível com as minhas impressões desordenadas.
O coração aperta mais um pouco, num laço que não vai se desfazer enquanto a tela branca não for apaziguada.
Eu suspiro e começo a escrever sem pensar, como num transe, como se uma terceira pessoa tivesse tomado minhas mãos e estivesse fazendo uso delas sem me pedir licença.
As Suites para Cello de Bach tomam o lugar do Concerto De Brandenburgo. A música agora é um lamento, ora pungente, ora insistente, que  é como um lembrete de que não posso abandonar meus pensamentos, que sou a criadora e a responsável por minhas ideias indisciplinadas.
E estas não me respeitam.  E me atormentam nas horas mais improváveis.  Por outro lado e no entanto,  elas me acalentam e me servem de companhia em noites insones, quando me levanto para arrumá-las na tela branca, onde se aquietam e me trazem o alívio e a paz tão desejados.
E eu as olho e as releio infinitas vezes, o preto no branco, sem nuanças de cinza para aplacar ou suavizar as dores, as paixões e os pensamentos ali expostos, de forma quase indecente. Minha alma desnudada sem o véu das dissimulações.
E uma sensação paradoxal se abate sobre mim. De vergonha e de libertação, por me haver exposto de forma absoluta e inconsequente.
Diante de mim a tela branca. Agora, marcada pelos meus sentimentos e ideias,  torna-se o meu legado.  Pois o que fica para sempre é o que pensamos e que transmitimos aos outros, sejam nossas dores, nossas alegrias, nossas experiências, nossas ideias, nossos pensamentos, cada um  deles um fragmento ínfimo do conhecimento humano.
Diante de mim a tela a tela branca. O meu maior alento e consolo. O meu maior desafio.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

OLHARES



Olhares

O restaurante era simples. Sem maiores decorações. Mesas cobertas com toalhas xadrez. Cozinha honesta, sem frescuras, farta em quantidade e em sabores.
No canto, senta-se um casal. Nem tão moços, nem tão velhos, nem bonitos, nem feios, apenas um par.
E eles se olham. E ele olha.
Ela sorri.
Ele olha.
Ela suspira e remexe o cabelo.
Ele olha.
Envergonhada, ela abaixa os olhos.
Ele só olha.
Ela torna a sorrir.
E a suspirar.
E ele olha...
O garçom coloca diante deles dois pratos.
E eles nem olham.
Apenas se entreolham.
Alheios ao mundo que os cercava, lá ficaram, apenas a se olharem, dizendo um ao outro, com seus olhares,  muito mais do que meras palavras poderiam falar.
Ele estende as mãos para ela, sem desviar o olhar.
Ela toca as mãos dele, sempre a olhar.
Ela sorri. Ele olha.
Eles se levantam e abraçados vão embora. Sempre a se olharem, enlevados, na descoberta do outro.
Nem velhos, nem moços,  nem bonitos nem feios, mas únicos no universo de seu amor.
E eu fiquei pensando. Feliz da mulher que, nem tão nova, nem tão velha, nem bonita, nem feia, foi contemplada, pelo menos uma vez em sua vida, com tal olhar.



terça-feira, 18 de agosto de 2015

A Noite dos Descolados



Turma descolada
Bruna em um momento de descontração  

A Noite dos Descolados


Era um desses lugares da moda, bem moderninho, mistura de bar e restaurante,  decoração arrojada, e cozinha contemporânea , é claro.
Lá fomos nós, grupinho animado, curtir a quinta-feira.
Salão lotado, clientela eclética, maneira chique de dizer que tinha de tudo: os descolados, os formadores de opiniões, os deslumbrados, os moradores da vizinhança  e alguns passantes incautos, que viram o bochicho e entraram.
Precavidos, havíamos reservado. A hostess, com um modelito estilo saco a vácuo, escova progressiva nos cabelos e sorriso Colgate, nos encaminhou até nossa mesa, espremida entre outras, onde nos sentamos em cadeiras, bancos e pufes e afins, que faziam parte da decoração.
Logo veio um rapaz trajado com jeans rasgados, camisa branca para fora,  com tranças rastafari e piercings no nariz, orelhas e onde mais fosse possível pendurar qualquer tipo de argolinhas. Muito simpático, logo se apresentou: - “Oiéé! Sou o Rafa! Sou eu que vou cuidar de vocês nesta noite!”
Tal declaração nos tranquilizou, ao sabermos que estaríamos nas mãos de tão prestimosa criatura.
Rafa então distribuiu alguns cardápios e explicou: - “Trata-se de nossa carta de drinks especiais, criações de nosso mixologista.” (mixologista: anglicismo derivado do verbo em inglês mix, que substitui o antigo nome  também em inglês - Bar Tender).
De fato,  mistura é a palavra que define bem os drinks ali oferecidos, pois todos eram compostos por uma grande quantidade de ingredientes que incluíam frutas, especiarias, infusões, xaropes,  essências e o álcool para catalisar o resultado.
Escolhemos alguns e, confesso, achei todos com gosto muito semelhante, e me lembraram os antigos Drops Dulcora que chupava, em minha infância.
Rafa, que nos havia deixado a sós com os drinks, surge, vários minutos depois, com o cardápio de comida, também descolado e preparado pelo chefe que acaba de voltar da Europa, onde fez estágio nos melhores restaurantes, e que  está empenhado em valorizar a cozinha e os ingredientes brasileiros.
Tivemos uma certa dificuldade em fazer nossas escolhas, em primeiro lugar por que o restaurante era muito escuro e mal conseguíamos enxergar o que estava escrito. Com a ajuda dos sempre presentes IPhones, conseguimos iluminar o cardápio.
O segundo problema foi decidir o que escolher. Queríamos algo mais simples que combinasse com a proposta descontraída do lugar e com os drinks, por sua vez, muito elaborados. Infelizmente não pudemos contar com a ajuda de Rafa, pois este aparentemente estava às voltas com algum assunto gravíssimo lá dentro, que o impedia de comparecer ao salão.
Entre os feijões de Santarém, tucupi, pequi, sementes de quiabo fritas, espumas de cará e outros itens de nossa imensa terra, achamos um mix ( acho que é a palavra de ordem do momento) de tapas brasileiros, que nos pareceu razoável.
 E eis que volta o Rafa, um tanto quanto esbaforido, quiçá ansioso, e lá se foi com nossos pedidos. A essa altura, eu já havia desistido dos drinks e partido para um vinho branco básico, que consegui por meios extremos. Fui direto ao bar e pedi ao mixologista de plantão.
O salão não parava de encher. Havíamos desistido de conversar pois além da musica altíssima, a acústica do ambiente amplificava o vozerio  exaltado dos frequentadores, certamente muitos decibéis acima do suportável. Nos contentamos em observar as figuras que nos rodeavam.
 Flashes pipocavam a cada segundo.  As selfies bombavam. Whatssaps  a mil! Instagram! Facebook! Curtidas! Estávamos na nova Terra do Nunca, onde as pessoas nunca se encontram de verdade, apenas em realidades paralelas, eternamente separadas pelos Aplicativos e outros seres míticos, habitantes dos Universos Virtuais.
Más noticias! Rafa definitivamente nos abandonou! Para substitui-lo  apareceu Bruna, seu avatar feminino, de cabelos platinum com reflexos laranja, cortados por algum cabeleireiro surtado, após ingerir alguns litros de chá de cogumelos alucinógenos. Bruna, obviamente, também usava piercings, usava jeans rasgados e uma blusa que certamente pertencera a sua irmã caçula. As unhas e batom negros completavam o visual. Detalhe: Bruna pagava cofrinho...
A gentil Bruna finalmente nos trouxe o Mix, tão penosamente escolhido por nós.
Olhei o prato com exacerbada curiosidade e uma certa apreensão. Lá estavam os indefectíveis itens da moda: espumas, texturas, mini brotos. Ausentes: sabores, aromas, satisfação. Suspirei e me abstive de comentários. Naquele momento desejei ardentemente ser a Feiticeira, do  seriado de TV, que com uma mexidinha do nariz, transformaria aquele pandemônio num bistrô singelo, de toalhinhas xadrez , onde se pudesse usufruir de boa comida em boa companhia e em silencio...
Bruna, misteriosamente, também desapareceu, tragada pelo Buraco Negro que suga todos os garçons em hora de movimento. Pena... estávamos sentindo falta de seu visual discreto.
Acabamos por pagar a conta direto com  a moça emburrada do caixa, que não parou de reclamar de tudo e de todos, enquanto lidava com nossos cartões.
A noite sem fim  finalmente chegou ao fim. Em casa,  ainda zonza,  com os ouvidos doloridos pelo silencio ensurdecedor que normalmente sucede àquela barulheira infernal,  cheguei à seguinte conclusão: não sou descolada.
Eu estava exausta. Muita informação . De fato, muita informação.


PS: Faço neste momento um aparte. Gosto do Brasil e dos sabores tropicais. Gosto de regionalismo. Portanto, a cozinha Paraense tem o seu apogeu em Belém.  A Nordestina no Nordeste. Por que não podemos definir uma cozinha carioca com os ingredientes que crescem perto de nós?  Nada contra usar ingredientes de outras partes do pais. Mas cansa ver a copia da copia da copia de um original, há muito deturpado...

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Gosto das Palavras



O Gosto das Palavras

Sinto saudades de algumas palavras que, parece-me, caíram em desuso.
Outrora, alfarrábios, almejar, por conseguinte, soslaio, inexorável, chumbrega, outrossim,  tantas outras... Algumas engraçadas, outras poéticas, formais e por que não,  prosaicas e até bizarras: substantivos, verbos e advérbios, adjetivos, todas fizeram parte de minha infância e permanecem vivas em minha memoria.
Sinto falta do pretérito mais-que-perfeito, que por ser tão perfeito pertence aos romances de outrora, que li em minha adolescência, onde as cenas de amor tinham lugar em saraus e bailes, em que as damas flertavam com os cavalheiros com olhares de soslaio, e se abanavam  afogueadamente com seus leques.
Provavelmente são os primeiros acenos da idade - afinal somos todos destinados a envelhecer – mas acordei nostálgica, com a mente voltada para o passado.
Lembranças de infância e de outros tempos vieram me visitar, e com elas as palavras adormecidas que por lá permaneceram, guardadas em antigos alfarrábios, resquícios de trechos lidos, de fantasias imaginadas e de pensamentos ao acaso.
As palavras são nossas amigas. Mais do que isso: são a representação de tudo o que somos. São as nossas companheiras em noites insones, quando nossos pensamentos se misturam com nossos sonhos de forma inexorável, e vagam soltos e indomáveis. São nossas guias confiáveis,  quando almejamos galgar as trilhas precisas do raciocínio lógico.
Têm vida, assim como nós. E têm gosto, texturas, assim como os pratos que os cozinheiros inventam. Algumas são grandiosas como as copiosas refeições, outras são chumbregas como uma media com pão e manteiga, mas nem por isso menos valiosas.
Tem palavras doces, que se derretem na boca . Há outras voluptuosas, que fazem nossa língua se enrolar e salivar ao serem pronunciadas. Tem aquelas crocantes, que nos dão a sensação de mastigar salgadinhos de pacote.
E  há as aveludadas, que  envolvem o paladar e nos confortam. Para acrescentar temperos, podemos usar palavras picantes. Porque não?
Mas, como em tudo nessa vida, há a contra partida.
Assim como nos consolam e  acalentam, as palavras podem ser amargas como o fel, que nos escorre goela abaixo. Podem ser e são ferinas, tão ácidas que nos queimam por dentro, deixando um rastro de  feridas que não cicatrizam.
Por seu intermédio podemos dar vazão a tudo o que sentimos, o  que queremos expressar,  do amor mais sincero ao ódio mais profundo, da admiração extrema ao desprezo absoluto.  Podemos aprender e ensinar. Elas são o inesgotável alimento de nossa alma.
Diz o ditado que somos senhores das palavras não proferidas. Não concordo.
São elas as servas mais fieis de nossas ideias. Somos, no entanto, responsáveis pelo que falamos e como o dizemos. Por conseguinte, devemos ser capazes de arcar com as consequências.
Outrossim, nada mais a declarar.
Palavras! Palavras e mais palavras! Benditas sejam!



domingo, 2 de agosto de 2015

Se Você Fosse Um Vinho?


Se Você Fosse Um Vinho?

Gosto de vinhos. Desde pequenina. Sempre que havia um almoço na minha casa, meu pai me dava um pouco, misturado com água e um pouquinho de açúcar. Eu me lembro nitidamente da sensação agradável que me vinha ( provavelmente o álcool).
No entanto, passaram-se muitos anos antes de voltar a apreciar a bebida.
Ao ingressar no mundo da gastronomia, comecei a aprender sobre essa fantástica descoberta do homem. E quanto mais aprendo, mais vejo que menos sei e mais o assunto me fascina.
Provavelmente a bebida alcóolica mais antiga da humanidade ( há uma disputa entre o vinho e a cerveja e, recentemente fala-se em hidromel), o vinho é  uma dádiva da natureza. Os primeiros vinhos foram provenientes da fermentação natural das uvas caídas no chão. Por serendipidade, alguém, há milhares de anos atrás, teve a feliz ideia de provar as uvas fermentadas e tomar o primeiro porre da humanidade. Algum tempo depois, outro alguém de nossa engenhosa  espécie resolveu dar uma mãozinha à natureza e criou o primeiro processo de vinificação.
Os vinhos, assim como nós, possuem vida, caráter e personalidade. Eles nos encantam, nos surpreendem e, algumas vezes, nos decepcionam. E, assim como nós, são únicos.
E cada um tem um destino e uma missão a cumprir. E um jeito de ser.  Comparo as pessoas às diferentes variedades de vinhos.
Provavelmente seu vinho predileto tem a ver com o tipo de pessoa que você é. Vamos lá. Alguns exemplos.
Há aqueles que são como os Cabernets de Bordeaux. Elegantes, cultos, refinados, tradicionais, frequentam os ambientes mais sofisticados e jamais perdem a dignidade.
As pessoas Pinot Noir da Borgonha são glamorosas, sexy, frequentam os lugares badalados, são trendies, descoladas.
Já o tipo Merlot é discreto,  aparentemente frágil, mas que esconde uma grande força interior e que seduz de forma lenta, porém irreversível.  Seu charme só pode ser percebido por aqueles com espíritos superiores. Um bom Merlot jamais se esquece.
Há os  Malbec Novo Mundo, estilo pitbull, que chegam arrasando, porém são absolutamente desprovidos de conteúdo e enjoam logo depois do primeiro copo. A convivência com eles nos deixa exaustos.
E há os assemblage, que misturam Syrah, Malbec, Cabernet Franc e eventualmente Merlot e outras mais. São extremamente confusos, complicados, nos fazem pisar em ovos e nos deixam sem entender o que está acontecendo.
Não podemos esquecer dos italianos Sangiovese,  francos,  alegres, vivos, amigos, bons parceiros para uma noitada, para se rir e curtir a vida.
E há, claro, os neuróticos Carménère , impacientes, impulsivos, que não tem tempo para esperar, sempre ansiosos, e que não conseguem ouvir uma frase completa e escutar o que você tem a dizer.
 E tem mais, muito mais! Eu nem falei nos branquinhos básicos.  São milhares de variedades! São milhões de combinações! Há um vinho para cada um de nós, que satisfaz nossas indiossincrasias.
Se eu fosse um vinho eu certamente seria... Hum... não conto.
E você? Que vinho você seria?

terça-feira, 14 de julho de 2015

As Cozinhas do Mundo

As cozinhas do Mundo

As Cozinhas do Mundo
Meu pai era um homem elegante e um apreciador da boa mesa. Foi ele um dos primeiros apreciadores de vinho que conheci. Possuía um termômetro para servir vinhos na temperatura correta, conhecia as regiões mais importantes da França e Itália e não hesitava em provar a culinária de culturas diferentes.
Leitor ávido, leu até o último dia de sua vida. Sua biblioteca culinária, herdada por mim, era das mais ecléticas. Misturados entre clássicos da cozinha francesa havia exemplares sobre cozinha chinesa, japonesa, italiana, judaica, grega, coreana, etc. Havia outros, mais estranhos, sobre cozinha para artríticos (adquirido por causa de uma bursite), cozinha ecológica (uma prévia da cozinha orgânica), cozinha para robots (ele comprou um robotcoupe), cozinha para pressão alta e, é claro, cozinha para colesterol.
Já naquela época, quando não se cogitava de orgânicos, ele já expressava preocupação com a origem dos ingredientes, e acreditava piamente nas propriedades curativas dos alimentos.
- Os legumes e frutas são alimentos de proteção –  preconizava ele.
Sua obsessão, conforme anteriormente mencionada, era o alho-poro. Não havia receita em que não o empregasse. Até na feijoada. Eu descobri por acaso, pois uma noite, nas vésperas de um de seus almoços para os amigos, eu o pilhei na cozinha adicionando uma significativa quantidade do dito cujo na panela do feijão. Ele deu uma risadinha meia sem graça, bem característica, e comentou:  - Alho-poro: ingrediente excepcional.
Foi ele quem me apresentou as diferentes cozinhas, que na época eram conhecidas por poucos.
Grande admirador da cozinha chinesa e de sua diversidade, dizia ele que os chineses são capazes de cozinhar qualquer coisa que ande com as costas voltadas para o sol.
Recentemente pude comprovar sua afirmação, ao receber pela internet várias fotos de iguarias chinesas vendidas nas ruas de Pequim: cobras, lagartas, escorpiões e outros seres rastejantes, artisticamente arrumados em espetinhos para serem devidamente degustados pelos ávidos fregueses.
Meu pai dedicou-se às diferentes cozinhas do mundo com o mesmo entusiasmo, de acordo com seus interesses e veneta.
Houve uma época, por exemplo, em que cismou com fondue. Comprou uma panela e 12 garfinhos, e todo o fim de semana era fondue para a família. É claro que a mesa virava uma praça de guerra onde a panela, localizada no centro, era o alvo a ser conquistado e os comensais os guerreiros, a lutarem com seus garfinhos por um naco de carne ou de pão ( os fondues eram alternadamente de carne ou de queijo). Ganhavam, é claro, os mais espertos e os mais famintos.
Minha mãe, que insistia em manter as aparências de civilidade e não perdia a pose, saía sempre com fome. Nós, por outro lado, nos engalfinhávamos sem a menor classe, na luta pelo último pedaço, mosqueteiras da gula.
Graças a Deus, meu pai logo depois passou a se interessar pela culinária italiana, muito provavelmente por influência de minha mãe, que já não agüentava mais aquelas cenas grotescas na mesa.
 Suas feijoadas tornaram-se antológicas e suas macarronadas fizeram história na família. Sua receita de espaguete a bolonhesa é para mim a melhor que já provei até hoje.
Ao completar dezoito anos, meu pai me levou com ele para uma viagem ao México e Estados Unidos, onde ele foi a trabalho.
Foi a minha primeira viagem internacional. Foi nessa viagem que fui apresentada às cozinhas do mundo.
 Meu pai, com sua visão peculiar da realidade, me deu de presente para ler no avião, em vez de um guia turístico qualquer, Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e A Erva do Diabo, de Carlos Castanheda.  E assim, na alegre companhia dos fantasmas dos antepassados de Pedro Páramo, e de Don Juan e suas experiências alucinógenas com mescal, lá fui eu para o México.
O México é um país colorido, que mistura história, religiões, tradições, revoluções, cultura e pimenta. O país me surpreendeu. Assim como a quantidade de pimenta que consomem.
Comem pimenta com tudo. Fui a um mercado de rua e fiquei impressionada com a quantidade e variedade de pimentas que havia: aji, jalapeño, chili, diversos tipos de malagueta, e muitas outras.  Coloridas e com diversos formatos, as pimentas pontificavam em todas as barraquinhas, e eram vendidas frescas, em conservas e secas. Havia também várias barracas oferecendo comidas típicas, as quais eram servidas com generosas porções de diferentes molhos de pimenta. Eu arregalei os olhos quando vi um senhor abrir uma maçã, e regá-la com uma colherada de pimentas antes de comer.
 Durante a viagem eu tinha que acompanhar meu pai em diversos compromissos oficiais, alguns interessantes, outros bem chatos.
Entre outros, fomos a um jantar oferecido num lugar chamado Hacienda de los Morales, uma hacienda de mais de 400 anos de idade, atualmente transformada em casa de eventos.
Logo na entrada imponente, um corredor iluminado com tocheiros já fazia o clima. Os salões, revestidos de pesados painéis de madeira maciça, remetiam a uma época de fausto e luxo severo, que me fez imaginar os antigos donos, senhores feudais.
O jantar era para cerca de 200 pessoas, distribuídas em mesas para dez pessoas, iluminadas com velas, e talheres postos para um banquete. O cenário era majestoso e fiquei imaginando aquele salão, em outros tempos, com las señoras e seus leques rendados, los señores galantemente vestidos em trajes de toureiros, e, claro, o toque final, com o Zorro adentrando pendurado no lustre gigantesco por seu chicote.
Sentamo-nos em uma das dezenas de mesas redondas, decoradas com imponentes candelabros. Da cozinha sai a procissão de garçons engalanados em suas roupagens de honra, vestidos de toureiros, portando em seus braços os pratos que seriam distribuídos aos convivas.
Não posso deixar de mencionar que as recomendações de infância haviam sido devidamente refrescadas. Guardanapo no colo, mãos pousadas sem cotovelos, e deixar comida no prato, nem pensar.
Um dos toureiros depositou o primeiro prato diante de mim. Tratava-se de um ceviche de peixe. Meu pai me explicou que ceviche era um peixe marinado em limão, sem passar pelo fogo e me lançou um olhar significativo. Suspirei e comecei a comer. O peixe tinha uma textura agradável e sua acidez, acompanhada pelo molho picante, tornava o prato bem agradável.
O cardápio era de comida típica, claro. Era a minha primeira experiência com uma cozinha nova. Até o momento tudo bem.
O toureiro trouxe o segundo prato. Era uma espécie de coquetel de camarões com abacate e uma salsa de tomates bem apimentada. Os camarões estavam bem firmes, o contraste do tomate junto com o abacate macio era surpreendente, a pimenta na medida certa acrescentava sabor.  Eu comecei a ganhar confiança e me achar cosmopolita e sofisticada.
O terceiro prato foi colocado à minha frente. Diante de mim havia uma carne de animal não identificado, coberta por um molho muito espesso e escuro. Mais uma vez meu pai, fonte inesgotável de conhecimentos, me supriu com informações sobre a cozinha mexicana. “Trata-se de um mole poblano”- disse ele. “É o prato nacional do México. Carne de peru com molho”. Ele se absteve de entrar em maiores detalhes sobre o prato, em cuja composição entra chocolate, provavelmente para evitar qualquer preconceito de minha parte, e, óbvio, me fulminou com o indefectível olhar.
Animada pelas experiências anteriores e coagida pelo Olhar, eu dei a primeira garfada.
Fogo líquido me entrou pela boca e se espalhou por todo o caminho até meu estômago. Hoje em dia sou bastante valente para pimentas, mas naquela época ainda não era uma grande apreciadora do condimento.
Comecei a ficar vermelha e não havia água suficiente para aliviar a queimação por dentro.
Lágrimas copiosas escorriam de meus olhos, sem que eu tivesse noção.
Meu pai, que até então estava distraído conversando com os outros convidados e ainda não havia provado o prato, me olhou e perguntou surpreso. “O que houve minha filha? Saudades de casa?”. Ao que eu miseravelmente respondi: “Não, pai. É a pimenta”.
Pela primeira vez ele me permitiu deixar a comida no prato.
Em Nova York, meu pai me levou a uma sucessão de restaurantes de diferentes nacionalidades, onde me fez provar, entre outras, a cozinha grega e turca, chinesa e japonesa.
Conheci os kebbabs, tomei sopa de ninho de andorinha,  provei  meu primeiro sashimi e me afogueei nos vapores do wassabi ( pela segunda vez a comida me fez chorar).
Aprendi muito naquela viagem. Porém, o mais importante foi o despertar de minha curiosidade e interesse pelos diferentes ingredientes, diferentes texturas e sabores, até então desconhecidos.
Um novo universo se abriu para mim. Eu pude ter uma noção da diversidade de nossa espécie, das infinitas diferenças culturais e ambientais que existem pelo nosso mundo, apenas pelas diferentes cozinhas que pude experimentar. Não pude deixar de comparar fascinada a dieta dos japoneses (eu havia ficado bastante impressionada com o sashimi e com os sushis) e o nosso nordestino. Somos todos parte de uma mesma espécie e, no entanto, há diferenças abissais entre as formas de se viver e de se alimentar. O que me leva à inevitável conclusão: somos aquilo que comemos.
Devo ao meu pai muito. A vida, evidentemente. Minha educação formal e subsistência.
Sobretudo, devo a ele o que sou hoje em dia. Afinal, foi ele quem me fez amar a comida que faço.
Foi ele quem me mostrou as cozinhas do mundo.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Buenos Aires: O Óbvio e a Meia Furada

Buenos Aires: O óbvio e a meia furada.

A vida me tem sido generosa.  As oportunidades têm batido à minha porta com frequência. Ë como minha mãe dizia, oportunidade é um bicho cabeludo pela frente, e careca por trás.  Portanto, lá fui eu de novo botar o pé na estrada.  Alguns amigos me convidaram para acompanha-los num périplo gastronômico por Buenos Aires.
Fomos atrás do obvio: vinho, carne e tango (eu).
Alguns torcerão  seus narizes. E os restaurantes contemporâneos, com menus degustação, chevicherias, peruanos, italianos ? Irei a cevicherias e comerei comida peruana no Peru. Irei a restaurantes italianos na Itália. Quanto a cardápios degustação, há muito que me entedio depois do terceiro prato.
À medida que envelheço, a simplicidade me atrai. Sabores nítidos, texturas definidas, refogados, comida de panela.
Por conseguinte, descobrir qual a melhor carne de Buenos Aires, me pareceu uma missão digna e necessária.
Chegamos a Buenos Aires lá pelas tantas, e, decididos, partimos para a primeira casa.
Tratava-se de uma das mais tradicionais casas de carne de Buenos Aires, a Mirasol, onde eu já havia estado há cerca de um ano.. Decoração estilo anos 50, garçons de summer, maitre de smoking - o tempo parou naquele lugar.
A nossa volta, argentinos de terno, famílias e mesas de amigos nos indicavam que estávamos em um estabelecimento frequentado pelos locais.
Por coincidência, o mesmo garçom que me havia atendido na outra vez me reconheceu e veio nos atender. Ernesto, era o seu nome. E usufruímos do privilégio de ser reconhecido em um restaurante.
Logo nos sentamos e pedimos nosso primeiro Malbec.  Um Achaval Ferrer 2013, um pouco fechado no inicio, porém, depois de algum tempo, abriu e revelou-se um belo acompanhamento para nossas carnes.
E estas chegaram. Me perdoem os vegetarianos de plantão, mas o homem é carnívoro. Estamos no topo da cadeia alimentar. A nossa frente estavam ojo de bife, vacío, molejas, asado de tira,  nacos suculentos, grelhados à perfeição, acompanhados por papas fritas ( de verdade ).  Tem coisas que não se explicam. Não sei se foi o frio ou a fome, o fato é que foi uma das melhores refeições dos últimos tempos. Sabores simples, quase primitivos porém opulentos, regados a vinhos copiosos, e acompanhados pelo riso solto, fizeram daquela noite um marco em minha memoria. Cheguei ao hotel em paz com meu estômago e com minha alma.
Nos próximos dias continuamos a nossa maratona em busca da melhor carne: La Cabreira, Estilo Campo, La Brigada, La Cabaña, La Caballeriza...
Ao cabo de 5 dias, passei a sonhar com um boi mugindo ao meu lado. Devo confessar que embora todas servissem excelente carne, para mim, sem dúvida, a Mirasol foi a melhor.
Em minha ultima noite em Buenos Aires, recusei terminantemente qualquer menção a comida e fui assistir ao show de tango.
Brega? Eu? Talvez. Pouco importa. Como disse antes fui atrás do óbvio.
Procurei o melhor espetáculo de tango de Buenos Aires, num belo teatro, em estilo clássico. Sentei-me em meu camarote, só. Naquele momento desejei ter um leque, como as damas de outrora, mas ao meu alcance, somente meu celular. Sinal dos tempos...
Começou o espetáculo. Tango, tango, tango. Clássico, encenação de milongas, contemporâneo... o tempo passou sem eu perceber.
Chega o numero final. Os dançarinos principais, um belo casal,  executam a dança.
Ela, pele alva, braços e pernas torneados de bailarina, vestida de negro, contrastava com ele, moreno, esguio, cabelos escuros, também em negro.  O palco era deles. Sensualidade, graça, força, leveza... O lamento pungente do bandoneon pontificava na orquestra.
E aí,  estava lá. O buraco na meia. Um ponto branco, na altura da coxa revestida de negro, aparecia pela fenda do vestido.
Não! Minha vontade era gritar: “ – Sua meia está furada! “. Todo o encanto da cena havia sido tragado pelo buraco branco. Não conseguia desviar meu olhar do pequeno buraco, que lenta e inexoravelmente aumentava, à medida que a dançarina executava os passos e rodopios.
De repente, como se um raio me houvesse atingido, tive um momento de absoluta clareza. O buraco na meia era a representação da humanidade que há em nós. E a perfeição da humanidade reside nas imperfeições que carregamos.
Passei, então, a fantasiar que existia um grande amor entre os dançarinos e que ambos estavam ali a demonstrar um ao outro o sentimento mútuo, indiferentes à  plateia que os rodeava, indiferentes às mundanidades. Nos momentos em que a humanidade se derrama sobre nós, sob a forma de sentimentos, sejam eles amor, paixão, ódio, quem se importa? Meia furada, a maquiagem escorrida, o cabelo desfeito, o botão que falta na camisa... Que importa? Quem se importa?
A dança acabou. No meio do palco, arfantes, com o suor escorrendo por suas têmporas, os dançarinos se curvam agradecendo os aplausos. Eles se entreolham e se retiram. O show acabou.
Fui atrás do óbvio e achei. Nas refeições generosas, nos vinhos copiosos,, nas carnes opulentas, nas risadas soltas, no tango e na meia furada.
Não chores por mim. Argentina, pois voltarei.
Sempre atrás do óbvio.