sexta-feira, 10 de julho de 2015

Buenos Aires: O Óbvio e a Meia Furada

Buenos Aires: O óbvio e a meia furada.

A vida me tem sido generosa.  As oportunidades têm batido à minha porta com frequência. Ë como minha mãe dizia, oportunidade é um bicho cabeludo pela frente, e careca por trás.  Portanto, lá fui eu de novo botar o pé na estrada.  Alguns amigos me convidaram para acompanha-los num périplo gastronômico por Buenos Aires.
Fomos atrás do obvio: vinho, carne e tango (eu).
Alguns torcerão  seus narizes. E os restaurantes contemporâneos, com menus degustação, chevicherias, peruanos, italianos ? Irei a cevicherias e comerei comida peruana no Peru. Irei a restaurantes italianos na Itália. Quanto a cardápios degustação, há muito que me entedio depois do terceiro prato.
À medida que envelheço, a simplicidade me atrai. Sabores nítidos, texturas definidas, refogados, comida de panela.
Por conseguinte, descobrir qual a melhor carne de Buenos Aires, me pareceu uma missão digna e necessária.
Chegamos a Buenos Aires lá pelas tantas, e, decididos, partimos para a primeira casa.
Tratava-se de uma das mais tradicionais casas de carne de Buenos Aires, a Mirasol, onde eu já havia estado há cerca de um ano.. Decoração estilo anos 50, garçons de summer, maitre de smoking - o tempo parou naquele lugar.
A nossa volta, argentinos de terno, famílias e mesas de amigos nos indicavam que estávamos em um estabelecimento frequentado pelos locais.
Por coincidência, o mesmo garçom que me havia atendido na outra vez me reconheceu e veio nos atender. Ernesto, era o seu nome. E usufruímos do privilégio de ser reconhecido em um restaurante.
Logo nos sentamos e pedimos nosso primeiro Malbec.  Um Achaval Ferrer 2013, um pouco fechado no inicio, porém, depois de algum tempo, abriu e revelou-se um belo acompanhamento para nossas carnes.
E estas chegaram. Me perdoem os vegetarianos de plantão, mas o homem é carnívoro. Estamos no topo da cadeia alimentar. A nossa frente estavam ojo de bife, vacío, molejas, asado de tira,  nacos suculentos, grelhados à perfeição, acompanhados por papas fritas ( de verdade ).  Tem coisas que não se explicam. Não sei se foi o frio ou a fome, o fato é que foi uma das melhores refeições dos últimos tempos. Sabores simples, quase primitivos porém opulentos, regados a vinhos copiosos, e acompanhados pelo riso solto, fizeram daquela noite um marco em minha memoria. Cheguei ao hotel em paz com meu estômago e com minha alma.
Nos próximos dias continuamos a nossa maratona em busca da melhor carne: La Cabreira, Estilo Campo, La Brigada, La Cabaña, La Caballeriza...
Ao cabo de 5 dias, passei a sonhar com um boi mugindo ao meu lado. Devo confessar que embora todas servissem excelente carne, para mim, sem dúvida, a Mirasol foi a melhor.
Em minha ultima noite em Buenos Aires, recusei terminantemente qualquer menção a comida e fui assistir ao show de tango.
Brega? Eu? Talvez. Pouco importa. Como disse antes fui atrás do óbvio.
Procurei o melhor espetáculo de tango de Buenos Aires, num belo teatro, em estilo clássico. Sentei-me em meu camarote, só. Naquele momento desejei ter um leque, como as damas de outrora, mas ao meu alcance, somente meu celular. Sinal dos tempos...
Começou o espetáculo. Tango, tango, tango. Clássico, encenação de milongas, contemporâneo... o tempo passou sem eu perceber.
Chega o numero final. Os dançarinos principais, um belo casal,  executam a dança.
Ela, pele alva, braços e pernas torneados de bailarina, vestida de negro, contrastava com ele, moreno, esguio, cabelos escuros, também em negro.  O palco era deles. Sensualidade, graça, força, leveza... O lamento pungente do bandoneon pontificava na orquestra.
E aí,  estava lá. O buraco na meia. Um ponto branco, na altura da coxa revestida de negro, aparecia pela fenda do vestido.
Não! Minha vontade era gritar: “ – Sua meia está furada! “. Todo o encanto da cena havia sido tragado pelo buraco branco. Não conseguia desviar meu olhar do pequeno buraco, que lenta e inexoravelmente aumentava, à medida que a dançarina executava os passos e rodopios.
De repente, como se um raio me houvesse atingido, tive um momento de absoluta clareza. O buraco na meia era a representação da humanidade que há em nós. E a perfeição da humanidade reside nas imperfeições que carregamos.
Passei, então, a fantasiar que existia um grande amor entre os dançarinos e que ambos estavam ali a demonstrar um ao outro o sentimento mútuo, indiferentes à  plateia que os rodeava, indiferentes às mundanidades. Nos momentos em que a humanidade se derrama sobre nós, sob a forma de sentimentos, sejam eles amor, paixão, ódio, quem se importa? Meia furada, a maquiagem escorrida, o cabelo desfeito, o botão que falta na camisa... Que importa? Quem se importa?
A dança acabou. No meio do palco, arfantes, com o suor escorrendo por suas têmporas, os dançarinos se curvam agradecendo os aplausos. Eles se entreolham e se retiram. O show acabou.
Fui atrás do óbvio e achei. Nas refeições generosas, nos vinhos copiosos,, nas carnes opulentas, nas risadas soltas, no tango e na meia furada.
Não chores por mim. Argentina, pois voltarei.
Sempre atrás do óbvio.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Nova York 3.0: A Loura Diet Coke.



Nova York 3.0: A Loura Diet Coke

Minha última noite em Nova York. Malas por fazer, afinal quem resiste a umas comprinhas... Decidi jantar no próprio hotel.
Fiquei hospedada num hotel badalado -  hotel boutique, como chamam por aí- com um restaurante descolado, do Jeans Georges. Tanto o restaurante quanto o bar são frequentados pelos executivos e moradores do Upper East Side, sem dúvida gente da melhor estirpe. Ambos estabelecimentos vivem lotados de domingo a domingo.
Eu havia reservado para mais tarde, um horário mais tranquilo.
Depois de arrumar as malas, desci para relaxar e aproveitar minha ultima noite. Sentei-me no bar à espera de Mr. John, e pedi meu copo de Sancerre. Olhei ao redor, observando o publico eclético.  Homens e mulheres, em grupos ou a sós, cada um deles procurando por diversão, conversas, lazer, por uma companhia para a noite ou pelo par para a vida toda. Por trás de cada risada, sorriso, trejeito, charme, percebe-se a ansiedade, a insegurança, a certeza de que se está abafando, os olhares furtivos, o desejo de agradar... e percebe-se as mãos que se esbarram, os corpos que se tocam, e diante de nós está o balé dos desencontrados sentimentos humanos.
De repente sinto um forte aroma de perfume. Ao meu lado senta-se uma loura belíssima, impecavelmente vestida, maquiada e penteada. Olhares se voltam para ela. Não pude deixar de reparar. Porém, ao segundo olhar, nota-se que a saia é um pouco curta demais, o batom é um pouco vermelho demais, a roupa é um pouco justa demais, assim como o perfume. Ela olha ao redor com um ar entediado, suspira e pede uma Diet Coke. Consulta o telefone impacientemente.
Mr. John chega finalmente. Ficara retido com reuniões de negócios. Convido-o para um drink antes de irmos para o restaurante.
De rabo de olho observo a loura. Devo esclarecer a todos, neste momento, que não sou uma xereta contumaz. Apenas as situações humanas me fascinam. Não julgo, não critico, nem condeno. Todos temos nossas fraquezas. Todos temos nossos pecados. Ao contrario, eu me enriqueço ao partilhar dessas experiências.
Chega o homem por quem ela esperava. Alto, careca, bem apessoado, um tanto barrigudo. Olha ao redor e vai de encontro a ela. A loura abre um  sorriso esplendorosamente isento de alegria. Ele se senta ao lado dela, pede um uísque, e trocam algumas palavras. Ele bebe alguns goles, paga a conta e retiram-se do bar, a loura à frente, causando suspiros por onde passa.
Fomos para o restaurante. Não me lembro do que Mr. John comeu. De minha parte pedi um hambúrguer. Ir a Nova York e não comer hambúrguer é que nem ir a Roma e não comer massa. O hambúrguer de lá é famoso.
Pedi meu vinho predileto daquela viagem. Um Amapola Creek, Cabernet Sauvignon 2010, Sonoma Valley. Redondo, aveludado, meio over como os vinhos americanos, mas exatamente do que eu precisava. Desceu como uma luva.
Meu hambúrguer chegou. Fez jus à fama. Tenro, no ponto,  delicioso, acompanhado por batatinhas crocantes. Pena que puseram azeite de trufas. Não precisava.
A noite foi longa. Havia muito o que conversar. Afinal Mr. John foi um grande companheiro de viagem. Teve a pachorra de me acompanhar em minha peregrinação gastronômica,  nem sempre bem sucedida, sem dizer um ai. Relembramos os bons momentos, o desespero para se conseguir um taxi numa tarde chuvosa,  o domingo no Central Park, a noite louca do Hell’s Kitchen, as comidas  bizarras e os trejeitos pedantes de alguns restaurantes, assim como o serviço à la italiana da Pizzaria Serafina.
Chegou a hora afinal. Não sou muito boa em despedidas.  Não gosto de dizer adeus, e até à volta me parece banal. Não  sei quando voltarei a ver Mr. John, ou se voltarei a vê-lo. A vida é tão cheia de esquinas...
Subi para o quarto, e ainda dei uma olhada nas malas.
Finalmente eu me deitei e meus pensamentos foram para a Loura Diet Coke. O sorriso frio, isento de qualquer emoção, me veio à mente. De alguma forma temos algo em comum. Em minha profissão de cozinheira, meu objetivo é trazer prazer aos outros. Ela, em sua profissão, também. Mas a diferença entre nós é que sinto alegria com o que faço, ao passo que ela, parece-me, cumpre bem seu papel. Apenas.
E cheguei à conclusão de que não há relacionamento mais honesto do que esse. Não há ilusões nem falsas expectativas. Cada um sabe o que quer, o que vai obter,  o preço que se cobra e o preço que se paga.
Apaguei a luz e dormi minha ultima noite na cidade que não dorme nunca.
See ya New York!



domingo, 28 de junho de 2015

Nova York: Casal 2.0


Nova York: Casal 2.0

E eis que minha alma adquirida (vide post Nova York 1.0), num esforço supremo, nos consegue uma reserva em um dos mais cobiçados restaurantes nova-iorquinos, frequentado pelo jetset, por artistas famosos, e por alguns brasileiros que incorrem na graça divina de o conseguirem, seja por que meios forem: o Polo Bar do Ralph Lauren. E no sábado! Às 19:00! Para alguns, certamente é como se abrissem as portas do Paraiso.
A ocasião obviamente merecia uma produção especial. Lá estávamos nós, me and Mr. John, devidamente embecados  - eu num pretinho básico, que não falha, e Mr. John em seu blazer Ralph Lauren ( I presume ) – pontualmente, às sete horas da noite.
Na porta, para nos receber, nada menos do que o Príncipe Encantado, com esvoaçantes cabelos louros, sorriso cintilante, trajando um belíssimo blazer com as nobres insígnias de sua casa ancestral – Ralph Lauren. Imediatamente solicitou a uma das princesas ao seu lado, que nos conduzisse ao bar, enquanto esperávamos nossa mesa ser devidamente preparada.
Após alguns minutos, outra princesa nos avisou que a mesa estava pronta, e nos guiou até o salão do restaurante,  decorado no estilo castelo de caça inglês, com paredes ricamente  forradas com painéis de madeira, onde gravuras com  cenas de caçadas, belos cavalos, cães, etc. se espalhavam. Por toda a parte havia vitrines de mogno, com belos objetos de época, em prata.
As mesas resplandeciam com toalhas de linho, arranjos florais, copos de cristal e talheres de prata.
Fomos acomodados um  aconchegante nicho junto à parede, numa mesa de canto. Do outro lado havia outra mesa exatamente igual à nossa.
Uma garçonete solícita nos entregou os cardápios. Fiquei surpresa em ver que todos os  pratos faziam parte  da cozinha tradicional americana, no estilo anos 50.
Não resisti e pedi uma roasted chicken com mashed potatoes and gravy. Nada mais retrô. Mr. John atacou de ribeye steak and roasted potatoes.
Escolhemos um vinho californiano, é claro. Chega, então,  à mesa outra atendente e nos serve o mais delicioso popover que já provei. Para quem não conhece, popovers são uma receita americana de pãezinhos de massa líquida.
Quentinhos, dourados, macios e ocos por dentro. Quase fui à lagrimas.  Minha mãe fazia estes pãezinhos para mim nas tardes de domingo. Mr. John, nova-iorquino, estranhou a minha comoção. Contei a ele minha historia.
De repente, chegam os ocupantes da mesa ao lado. Ele chegou primeiro. Alto, magro, fisionomia jovem com cabelos grisalhos, num blazer impecável e calça jeans de grife ( acho que é uniforme obrigatório para se ir ao Polo bar), parecia ser um modelo dos anúncios da marca. Ela chegou alguns minutos depois. Loura, obviamente, cabelos artisticamente presos num coque, chique, com vestido e bolsa em preto e branco, impecáveis, talvez até demais.
Ele se levantou e recebeu-a com um sorriso daqueles. Ela, mais discreta retribuiu com um discreto beijo na face.
Ralph e Lauren ( como os chamei mentalmente, de imediato ) se sentaram. Imediatamente Ralph estalou os dedos e pediu champagne.
Nossos pratos chegaram. O franguinho estava delicioso, crocante por fora e macio e tenro por dentro. Meu purê de batatas veio como eu imaginava. Rústico, com textura opulenta, e o molho por cima completava o conjunto.  Paladar infantil, alguns dirão. Porém os sabores me acalentaram. Mr. John, por sua vez estava bastante feliz com o suculento filé que lhe puseram a frente.
Na mesa ao lado, os ocupantes brindavam com champagne rosé e olhos nos olhos. Achei que iria assistir a uma dessas cenas românticas em que o rapaz se ajoelha, tira aquele anel de brilhante do bolso e pede a moça em casamento.
Eu me remexi na cadeira, já pensando em como fazer para tirar um foto e postar, é claro. Mr. John não gostou de minha atenção desviada e me disse algo do tipo “mind our own business”.
Voltei minha atenção para ele e para o meu franguinho, não necessariamente nessa ordem.
De repente o drama! Lauren se levanta rapidamente e sai . Ralph permanece sentado. de fisionomia franzida.  Sobre a mesa dois pratos de salada, praticamente intocados. Laureen está demorando. Ralph pede a conta.
Meu Deus! Lauren foi embora e largou Ralph sozinho na mesa? Lauren retorna. Trocam algumas palavras e ambos se levantam e vão embora, deixando os vestígios de uma noite que não aconteceu, de uma pergunta não formulada, ou de uma promessa que não se concretizou.
 A bela cena romântica que eu havia imaginado se transformara numa  cena de tristeza e desilusão por parte de alguém . Suspirei e tratei de me consolar com uma belíssima torta de maçãs,  com uma crosta fininha,  recheada com douradas maçãs caramelizadas e sorvete de baunilha.
Saímos do restaurante e fomos dar uma caminhada pela Quinta Avenida, em frente ao Central Park.
Caminhei em silencio, pensando que mesmo no Maravilhoso Mundo de Ralph Lauren, onde os homens  são belos e usam blazers com insígnias douradas, e as mulheres são louras, lindas e usam pretinhos básicos, há laços feitos e desfeitos e amores acabados. Nessa terra encantada os casais também vivem felizes ou infelizes. Para sempre?
Não me esquecerei dessa noite inusitada, em que comi um frango assado com purê de batatas,  em Nova York,  num restaurante chique. O Ralph Lauren sabe das coisas...

sábado, 20 de junho de 2015

New York 1.0



Nova York 1.0

 Tem que ir! Imperdível ! As dicas chovem quando a gente, com aquele sorriso blasé e ar mundano, anuncia casualmente: “Vou para Nova York”.
Restaurantes da moda, com menus degustação, chiques, descolados, temos que fazer a peregrinação e bater o ponto em cada um deles, dizer que fomos, pois afinal de contas, também somos descolados  e chiques.
O primeiro desafio é conseguir uma reserva.  Pelo menos com um mês de antecedência. Se você for do tipo que decide  sua viagem de última hora, você pagará caro por sua impulsividade. Para conseguir um lugar nesses Olimpos da gastronomia, você precisa comprar a alma de algum concierge, o que requer uma certa argúcia, além, é claro, de uma bela soma, para não desperdiçar  seu tempo e dinheiro, com uma alma incompetente. Eu, como padeço da eterna insustentável leveza dos distraídos, que não conseguem planejar a próxima semana, fui, a contra gosto, obrigada a adquirir uma dessas almas.
Minha alma adquirida desceu aos infernos e de lá extrai a primeira reserva . Restaurante disputadíssimo, ganhador de  vários prêmios internacionais, tido como um dos melhores de NY e, porque não, do mundo.
Lá fomos nós, me and Mr. John, minha companhia naquela cidade.
Chegamos por volta das 19:00, horário considerado chique. Na porta, nada menos que o próprio Ken, o marido da Barbie, com dentes de mentex, e um sorriso plastificado. Maneiroso, ele chamou uma atendente, que deve fazer anúncios na Vogue como bico, a qual nos levou a nossa mesa.
Logo nos acomodamos e diante de nós foi colocado um prato negro, de formato retangular, com duas carreirinhas brancas, meticulosamente paralelas, num canto. Não! Não é o que vocês estão pensando! Algo para intensificar os sentidos!
Era apenas sal. Logo vieram dois pãezinhos bem gostosos.
O garçom nos ofereceu água, a qual, pasmem, segundo ele, era fabricada especialmente para o restaurante. Até então, imaginava que água era a maior dádiva da natureza para os homens, disponível em rios, poços, fontes, etc.
O cardápio nos foi apresentado. Era aquilo ou aquilo mesmo. O garçom perguntou se havia algum tipo de restrição alimentar, o que me pareceu estranho, uma vez que não havia alternativas.
Pessoalmente, não tenho restrições de espécie alguma. Sou capaz de provar, e julgar se gosto ou não, qualquer alimento que não seja extremamente bizarro.
Mr. John, que é mais chegado a um espaguete ao sugo, suspirou. Confesso que fiquei com a ideia na cabeça, de que, caso houvesse restrições, seriamos gentilmente convidados a sair.
Escolhemos a harmonização de vinhos , para  acompanhar a refeição. Mal sabia eu o que me esperava.
Começou então, um desfile ininterrupto de pequeninas porções, artisticamente dispostas, que se assemelhavam, tanto em aparência, quanto no gosto, a ímãs de geladeira. Espumas de cor indefinida, que pareciam cuspe, o mesmo queijo em três texturas ( prefiro o queijo como ele é), trilogia de salsa, etc.
De repente chega uma latinha fechada. Lá no fundo havia uma batatinha cozida disposta sobre uma areia crocante, que não chegava aos pés de nossa farofa. Representava o tubérculo e a terra onde foi cultivado. Com uma certa dificuldade, consegui garfar a batatinha e provei. Advinhem! Tinha gosto de...batata!
Mr. John começou a se remexer na cadeira. O jantar nem havia começado.
Comecei a ficar um pouco tensa.
Chegou o primeiro prato.  Era a salada. Num vasinho um arranjo ( as folhas) e numa cuia uma esfera ( o vinagrete). Não havia garfo. Vieram as instruções: com as mãos, mergulhe as folhas na esfera, para que você possa apreciar o aspecto lúdico da comida. A vinagrete só tinha gosto de cominho e  de sementes de coentro. Detesto cominho. Mesmo que gostasse, estava demais.
Segundo prato: peixe.  Gostei da textura do peixe, levemente cozido em baixa temperatura, com uma espuma de sauce hollandaise, levemente aromatizada com wassabi.  Chegou à mesa numa espécie de aquário, sobre um caldo. Tratei de pescar o bocadito, e sorvi o caldo com ajuda de uma delicada colher de café.
Da mesma forma artística vieram outros pratos, servidos em aramados, chaleiras, cubos, etc, todos acompanhados de meticulosas instruções fornecidas pelo garçom . E a refeição se arrastava.
Mr. John começou a transpirar.
Finalmente a sobremesa, a qual, é claro, era uma desconstrução de varias receitas tradicionais. Já não me lembro o que era. Os vinhos, a sucessão quase infinita de bocadinhos, as instruções... muita informação.
Num certo momento, eu me senti num circo, sem ter a certeza de quem eram os palhaços...
Pedimos o café, que estranhamente veio numa xícara.
Saímos do restaurante com uma sensação singular e paradoxal. Estômago cheio e barriga vazia.
Paramos numa carrocinha e comemos cachorro-quente.




segunda-feira, 25 de maio de 2015

Você conhece Geraldinho?







Ninguém conhece Geraldinho, ou melhor, Geraldinhos. Já pesquisei no Google e não há referencias a este docinho, que fez parte de minha infância. Foi criado por minha avó.
O porque do nome permanecerá para sempre um mistério. A principio, achei que era algum tio, mas não há registros de parente com este nome na família.
Gosto de imaginar minha avó numa tarde qualquer, já idosa, preparando agradinhos para as netas, e ter a ideia de fazer pão-de-ló em forminhas de empadinhas.Ela gostava de fazer coisas pequeninas para a gente. A massa deve ter ficado seca e então ela teve a ideia de embebê-las em calda, assim como os papos de anjo, que tão bem fazia.
Talvez, naquele momento, lhe tenha vindo a lembrança de algum namorado dos tempos de mocinha e, com um sorriso secreto, resolveu dar o nome em homenagem ao amor antigo. Ou então queria implicar com meu avô, que se chamava Oscar.
Quem come um Geraldinho não esquece. Eu, pelo menos nunca esqueci. Lá vinham eles, em forminhas de margarida, molhadinhos e rescendendo a baunilha e raspa de limão, empilhados sobre um belo prato de cerâmica colorido.
Compartilho agora com vocês esta receita, talvez inédita, talvez não, afinal existe o tal do inconsciente coletivo, tão querida da minha infância.
Geraldinhos

Ingredientes

40g de manteiga (2 colheres de sopa)
80g de açúcar
4 gemas
4 claras em neve
1 colher de chá de fermento em pó
80g de farinha de trigo
1 colher de café de baunilha.
sal 1 pitada
Calda:
250g de agua
300g de açúcar
raspa de  1 limão

Preparo:
Bater açúcar com as gemas e a baunilha, juntar a manteiga. Juntar a farinha peneirada com o fermento e o sal.
Juntar as claras em neve.
Dispor em forminhas de empada untadas com manteiga. Assar em forno a 180.
Fazer a calda em ponto de fio
 Mergulhar na calda quente e escorrer.
Arrumar em forminhas laminadas em forma de margaridas.
servir junto com um bom cafezinho fresco.
   
  


domingo, 24 de maio de 2015

Eu quero é botar meu blog na nuvem!





Eu quero botar meu blog na nuvem

Escrever para mim é uma benção e uma maldição.
Sou erratica por natureza, e minha inspiração não obedece a disciplina alguma que lhe foi imposta.
Tentei, por varias vezes, estabelecer uma rotina de escrever, que invariavelmente resultou em angustiantes horas diante de uma tela em branco, alternada com visitas ao Face Book.
Sou acometida de "surtos literarios" que, sem qualquer aviso se abatem sobre mim. Acontecem na esteira da academia,  numa caminhada na beira da praia. ou durante  alguma conversar desinteressante, o que me faz passar por  biruta, distraída, excêntrica, ou coisa que o valha. Cá com  meus botões, acho que são detonados por alguns sentimentos como melancolia ou euforia extrema.
De repente, é como se um dique se tivesse rompido, e uma enxurrada impiedosa de palavras jorra e se derrama por todo o meu cerébro, e que por lá permanecem me assombrando, dia e noite,  até que eu as aprisione numa tela branca de computador, onde então se aquietam.
Passei um bom tempo submersa num mar de mesmices, presa num barco chamado rotina, onde, para qualquer direção que se olhasse, só havia marasmo e mediocridade.
Cá estou de volta, escrevendo como sempre com o coração acelerado, correndo atrás das minhas ideias soltas, antes que fujam de minha cabeça e voltem para o desterro do esquecimento, de onde ficarão me assombrando por não tê-las posto a salvo.
Cá estou eu, querendo botar meu blog na nuvem da internet, que flutua e que está em todas as partes, como uma divindade onisapiente, onde paira todo o conhecimento da raça humana. E por lá, junto com todas as outras ideias lá depositadas, junto com a genialidade, mediocridade,  riqueza, miséria, bondade, maldade, engenhosidade, criatividade e tudo o mais que a humanidade criou,  minhas ideias ficarão vagando pelo universo.





quinta-feira, 21 de maio de 2015

Brevidades





Brevidades
À medida que envelhecemos, vamos nos tornando mais nostálgicos. O passado, por que já passou, se torna doce. As lembranças nos vêm envoltas nos véus das memórias perdidas.
Minha avó fazia brevidades. Docinho antigo de outras épocas, de cozinhas com mesas de madeira, fogões Cosmopolita e geladeiras Frigidaire.
Trata-se de um bolinho feito com polvilho doce, uma versão brasileira de um petit four qualquer, essas francesices que todos acham chique, certamente inventado  por alguém genialmente simples, que substituiu a farinha pelo que tinha à mão: amido de mandioca.
O resultado é surpreendente. Um docinho delicado, que se derrete na boca, tão fugaz quanto o nome que  lhe foi dado.
Achei a receita de minha avó e assei uma fornada de brevidades, nas forminhas de empadinhas, tal qual ela fazia.
Desenformei e salpiquei açúcar de confeiteiro. Não resisti e comi uma, ainda quentinha.
Tão breve e tão bom quanto eu lembrava. Naquele momento a memoria se desfez de seu véu das lembranças  esmaecidas e nitidamente me vi sentadinha na cozinha de minha avó, tão branquinha, lá na Tijuca, comendo brevidades e matraqueando aquela conversinha inócua das crianças, enquanto lambia os dedos.
Uma lágrima fortuita escorreu. Tratei de enxugar e comi as restantes junto com um cafezinho.
Breve vida, vida breve, feita de brevidades. Breves prazeres, quanto mais breves mais intensos, breves momentos de felicidade.

Brevidades
5 ovos
2 xícaras de (chá) de açúcar
3 xíxaras de (chá) de polvilho doce 
1 colher (chá) de baunilha 

Modo de Fazer
Bata na batedeira as claras em neve. Junte o açucar e bata até ficar um merengue brilhante. Diminua a velocidade e junte as gemas. Desligue a batedeira e junte o polvilho doce, peneirado. Misture bem. Distribua entre forminhas de empada de cerca de 4cm de diâmetro, untadas e enfarinhadas.  Assar em forno aquecido a 180 o. C até dourarem levemente.